16 GW de baterias à venda — e a média que mente: a sobredemanda ponto a ponto do LRCAP 2026

Resposta direta: há hoje 197 projetos BESS anunciados à venda em marketplaces do setor, somando 16.443 MW habilitáveis — quase tudo mirando o LRCAP de dezembro. Cruzamos essa oferta com a margem de escoamento que calculamos barramento a barramento (motor de fluxo próprio, validado contra a solução oficial dos casos da EPE). No agregado, o que está à venda cabe: 14,7 GW anunciados contra 18,6 GW de soma das margens individuais. Mas o agregado é a estatística errada: em Caetité 230 kV há 756 MW à venda para ~106 MW de margem (7,1×); em Eliseu Martins, 2,8× — numa rede com nível de curto de 2 kA; e três barramentos bonificados têm margem firme (N-1) igual a ZERO. Quem compra projeto pelo agregado compra fila.

Vai comprar (ou vender) um projeto BESS e quer saber a posição real do ponto? Antes, o checklist de due diligence em 12 pontos e, em 17/11, a lista de habilitados por barramento. Relatório de margem por barramento em 48 h: WhatsApp (67) 98131-7507 · alessandro@estudoseletricos.com


De onde vêm os dois lados da conta

O lado da oferta é público: marketplaces de projetos passaram a listar empreendimentos BESS "prontos para habilitação" — com município, tensão do ponto de conexão, potência habilitável e duração. A fotografia de agosto/2026 que usamos aqui soma 197 projetos e 16.443 MW (listagem pública de um marketplace de projetos do setor). É oferta de venda, não habilitação: o mesmo ponto pode ter dez anúncios disputando a mesma rede — e é exatamente isso que a análise mede.

O lado da rede é nosso: margem de escoamento calculada por fluxo de potência sobre os casos públicos do planejamento (PDE 2035, caso 2029), nos 8 patamares do ano, nos dois sentidos (injeção e recarga), com motor próprio que reproduz a solução oficial dos casos da EPE ao piso de arredondamento. A margem anual de cada ponto é o mínimo sobre os 8 patamares — porque um patamar sozinho mente por fator 3. Nos dez barramentos bonificados mais apertados rodamos também o N-1 (a margem que sobrevive à pior contingência), e em todos os pontos calculamos o nível de curto-circuito (base ANAFAS da EPE, casos máximo e mínimo).

O que esta análise NÃO é: não é a Nota Técnica de Quantitativos do certame — essa sai até 30/09/2026 (ONS/EPE) e é quem manda, inclusive com as restrições acopladas (grupos de barramentos dividindo um teto comum) que só apertam o funil. A nossa comparação com a NT está pré-registrada: bandas de aceite definidas antes de o gabarito existir. Publicaremos o confronto, qualquer que seja o resultado.


O agregado diz que cabe. O agregado é a estatística errada.

Somando tudo: 14.715 MW anunciados em pontos onde temos margem calculada, contra 18.556 MW de soma das margens individuais — razão de 0,79×. Parece confortável. Três razões para desconfiar do conforto:

  1. Margens individuais não se somam. Dois barramentos vizinhos frequentemente dividem o mesmo circuito limitante: ocupar a margem de um consome a do outro. A soma de 18,6 GW é um teto teórico generoso — as restrições acopladas da NT-02 vão publicá-lo menor.
  2. A oferta se concentra onde a rede não acompanha. O mercado anuncia onde há terra, sol e histórico eólico — não onde há margem. Resultado: pontos 7× vendidos ao lado de pontos vazios.
  3. 1.728 MW estão anunciados em pontos que nem existem nos casos — subestações de conexão planejadas (Marcolândia, Aurora, Ubajara, Guanambi), cuja margem ninguém pode calcular hoje com dado público.

O que decide não é a média. É a linha do seu barramento nas tabelas abaixo.


Barramentos bonificados: onde o β atrai mais MW do que a rede aceita

Nos pontos do Anexo II (bonificação β = 0,9 na classificação), o cruzamento anúncios × margem anual de injeção:

Ponto de conexão MW à venda Margem N (anual) Razão Observação
Morro do Chapéu 500 kV (BA) 2.160 850 2,5× 10 anúncios de 216 MW
Eliseu Martins 230 kV (PI) 869 306 2,8× rede fraca: Icc ≈ 2,1 kA
Bom Jesus da Lapa 230 kV (BA) 1.080 600 1,8× —
Brumado 230 kV (BA) 972 544 1,8× —
Sobral 230 kV (CE) 1.080 788 1,4× —
Banabuiú 230 kV (CE) 1.008 794 1,3× —
Barreiras 230 kV (BA) 500 500 1,0× exatamente no limite
Janaúba 3 138 kV (MG) 72 156 0,5× mas a firme é 50 MW — o anunciado excede o N-1

E o dado que não aparece em nenhum anúncio: margem firme. No estudo N-1 dos dez bonificados mais apertados, três zeram — Barreiras 69, Jaíba 138 e Tabocas do Brejo Velho 230 perdem toda a margem com uma única contingência (e dois deles caem pela perda do mesmo circuito). No extremo oposto, Quixeré 230 mantém 247 de 253 MW sob a pior perda: margem robusta, não apenas grande. Para quem financia, essa é a diferença entre projeto e aposta.


Fora do Anexo II: sem β, e às vezes sem rede

4,9 GW dos anúncios estão em pontos fora da lista bonificada — competindo sem a vantagem de classificação, ou mirando as Temporadas de Acesso. Rodamos a margem desses pontos também:

Ponto de conexão MW à venda Margem N (anual) Razão
Caetité 230 kV (BA) 756 106 7,1×
Itararé 230 kV (SP) 216 44 4,9×
Porto Velho 69 kV (RO) 43 12 3,6×
São José do Belmonte 230 kV (PE) 547 312 1,8×
João Câmara II+III 230 kV (RN) 475 1.438 0,3×
Açu II+III 230 kV (RN) 497 1.237 0,4×
Campina Grande II+III 230 kV (PB) 500 2.737 0,2×

Caetité é o retrato do problema: coração da eólica baiana, terra conhecida, sete anúncios — e um corredor 230 kV que, no pior patamar do ano, aceita ~106 MW novos. O sétimo comprador leva um projeto cuja conexão depende de reforço que não está no controle dele. No extremo oposto, o Rio Grande do Norte é o oásis: Açu e João Câmara somam 2,7 GW de margem para menos de 1 GW anunciado — sem β, mas com rede.

E uma inversão que nenhum anúncio menciona: nos pontos apertados fora do Anexo II, a margem de recarga supera a de injeção (Caetité: 181 MW para absorver contra 106 para injetar). Corredor exportador carregado aceita consumo, não geração — um BESS que recarrega no horário de sobra é o que a rede quer ali, e o art. 9º, § 13 da Portaria 136/2026 obriga a contratar montante para as duas operações.


Como usar esses números (e como não usar)

  • Se você vai comprar um projeto pronto: peça a margem do ponto ANTES de discutir preço do ativo. Razão acima de 1× significa que os anúncios daquele ponto disputam entre si uma rede que não comporta todos — o valor do projeto depende da posição na disputa, não só do CAPEX evitado.
  • Se você vai vender: um relatório de margem independente valoriza o ativo bem posicionado (Quixeré, RN) e antecipa a objeção no mal posicionado.
  • Se você vai dar lance no LRCAP: margem N confortável com firme zero é risco de reforço fora do seu controle — e o barramento já está congelado desde o cadastramento. Precifique esse risco no lance ou decida não aportar a garantia; trocar de ponto cabe a quem compra projeto ou mira o ciclo seguinte.
  • Como não usar: nenhum número aqui substitui a NT de Quantitativos (30/09) nem parecer de acesso do ONS. É estimativa de engenharia com método declarado — feita para decidir onde aprofundar, não para protocolar.

Todos os pontos citados estão clicáveis no mapa dos barramentos do LRCAP 2026 — com margem de injeção e recarga, margem firme nos críticos, nível de curto-circuito, SCR e a evolução para o caso 2032. A parte financeira (lance de equilíbrio, TUST, GPA) está na calculadora de viabilidade BESS e na página da Temporada de Acesso.

Leia também: a previsão barra a barra dos 129 barramentos (injeção, recarga, firme N-1 e curto, publicada antes da NT de 30/09) e a página do resultado do leilão, atualizada ao vivo em 02 e 04/12.


Perguntas frequentes

O que é sobredemanda de barramento? É quando a soma da potência dos projetos que miram um mesmo ponto de conexão excede a margem de escoamento daquele ponto. Como o certame limita a contratação por barramento (e por grupos de barramentos, nas restrições acopladas), sobredemanda significa que nem todos os projetos anunciados naquele ponto poderão se conectar — a disputa se resolve por habilitação e preço.

Esses números de margem são oficiais? Não. São estimativa própria por fluxo de potência sobre os casos públicos do planejamento (PDE 2035), com motor validado contra a solução oficial embarcada nos próprios casos da EPE. Os números oficiais do certame saem na Nota Técnica de Quantitativos (ONS/EPE, até 30/09/2026) — e nossa comparação com ela está pré-registrada, com critérios de aceite definidos antes da publicação.

Por que a margem de um patamar só não serve? Porque a margem varia até 3× ao longo do ano: um barramento que aceita 1.175 MW na máxima diurna seca aceita 394 MW na máxima noturna seca. A margem que vale para decisão é o mínimo sobre os 8 patamares do caso — e o patamar crítico muda de barramento para barramento.

O que é margem firme e por que ela pode ser zero? Margem firme é a que sobrevive à perda do pior elemento da vizinhança (critério N-1). Ela pode ser zero mesmo onde a margem normal é confortável: basta uma contingência crítica levar o ponto ao limite. Três barramentos bonificados do LRCAP estão nessa condição — e é o tipo de informação que decide financiamento.

Comprar projeto em ponto sobredemandado é sempre erro? Não — é comprar risco com desconto, desde que o preço reflita a posição. O erro é pagar preço de ponto folgado por ativo em ponto 7× vendido. O relatório de margem existe para essa conversa acontecer com número na mesa.


Análise de 31/08/2026, sobre a listagem pública de um marketplace de projetos do setor (agosto/2026) e varreduras próprias de margem sobre os casos de referência do PDE 2035 (EPE). Estimativas de engenharia com método declarado; não substituem os documentos oficiais do certame.