Grade de 106 quadrados amarelos: os 106 resultados do protocolo de verificação do método IEEE 1584:2018 adotado pela NBR 17227:2025, todos iguais aos de uma reimplementação independente

Como verificar o software de energia incidente: o protocolo publicado no CONTECC 2026

Resposta direta: para saber se o software reproduz o método da ABNT NBR 17227:2025, que é o da IEEE 1584:2018, rode nele um conjunto público de casos de referência e compare com critérios fixados antes de rodar: |ΔEi| ≤ 0,02 cal/cm² e |ΔLAS| ≤ 3,0 mm. O protocolo aprovado no CONTECC 2026 usou 53 casos, 106 resultados, e mostrou que a forma do desvio aponta a causa: uma razão que muda de caso para caso indica dado digitado errado; uma razão constante, restrita a uma combinação de parâmetros, indica erro no próprio software.

Por Eng. Eletricista Alessandro da Paixão Pereira Júnior, CREA-MG 134340 · versão para o site do trabalho aprovado no CONTECC 2026, do Confea · outubro de 2026

Por que verificar a ferramenta

O estudo de energia incidente é assinado por um profissional habilitado, com ART, mas o cálculo é feito por software. A responsabilidade pelo resultado é do engenheiro, e não da ferramenta. Mesmo assim, nem a NBR 17227:2025 nem a IEEE 1584:2018 trazem um procedimento para conferir se uma implementação reproduz o método: as normas prescrevem o cálculo, não certificam programas.

Na prática, quem assina conta com duas garantias frágeis: a reputação comercial da ferramenta e a comparação informal com colegas. A literatura técnica brasileira sobre o tema trata de como calcular; nenhum trabalho localizado tratava de como verificar quem calculou. Com a nova NR-10, aprovada pela Portaria MTE nº 737/2026 e em vigor a partir de 1º de junho de 2027, essa pergunta deixa de ser acadêmica.

O protocolo em três regras

  1. Uma matriz que procura o erro. Os casos cobrem baixa e média tensão, as cinco configurações de eletrodo (VCB, VCBB, HCB, VOA e HOA) e invólucros típico e raso, que tem fator de correção próprio. O objetivo é exercitar as regiões do modelo em que um erro de implementação é plausível.
  2. Os dois cenários de corrente de arco. Cada caso é avaliado com a corrente de arco plena e com a reduzida: 53 casos geram 106 resultados.
  3. Critério declarado antes de rodar. |ΔEi| ≤ 0,02 cal/cm² e |ΔLAS| ≤ 3,0 mm. Resultado fora do critério não é descartado nem ajustado: vira objeto de diagnóstico.
ConfiguraçãoBT típicoBT rasoMT típicoTotal
VCB2221337
VCBB1124
HCB3249
VOA——22
HOA——11
Total2652253

Composição da matriz de verificação. Fonte: o trabalho publicado no CONTECC 2026.

Os 106 resultados passaram por quatro implementações: o motor de cálculo da Arc Flash Platform; uma reimplementação independente das equações da Seção 4 da IEEE 1584:2018, escrita sem reaproveitar código; uma ferramenta comercial de mercado; e uma implementação de terceiros, usada como contraprova nos casos divergentes. Os exemplos resolvidos do Anexo D da norma serviram de âncora adicional.

O que a matriz mostrou

Entre o motor e a reimplementação independente, a diferença de energia incidente foi nula nos 106 resultados. O dado vale mais do que parece: as duas só têm em comum o texto da norma, e a coincidência exata mostra que as decisões que não estão escritas em fórmula (classificar o invólucro, escolher os coeficientes, aplicar o fator de correção) foram lidas da mesma forma de modo independente.

Contra a ferramenta comercial, 98 dos 106 resultados ficaram dentro do critério, com desvios máximos de 0,0038 cal/cm² na energia incidente, 1,2 mm no limite de aproximação segura e 0,017 kA na corrente de arco: a ordem de grandeza do arredondamento de exibição da própria ferramenta, que mostra duas casas decimais.

Gráfico do desvio absoluto de energia incidente nos 106 resultados contra o critério de 0,02 cal/cm²: 98 abaixo da linha, 4 divergentes por duração de entrada e 4 por coeficiente de invólucro
Desvio absoluto de energia incidente nos 106 resultados, contra o critério declarado antes (desvios nulos aparecem no piso do eixo logarítmico). Figura 1 do trabalho.

Os oito fora do critério: a forma do desvio conta a causa

Os oito resultados divergentes não são ruído. Eles se separam em duas famílias, e é essa separação que torna o protocolo útil.

Família 1: razões exatas, que mudam de caso para caso

Quatro resultados tinham razões exatas em relação ao valor esperado: 0,5000, 2,0000, 1,5999 e 3,3393. Como a energia incidente é proporcional à duração do arco, a razão entre os resultados é a razão entre as durações: 150 ms digitados no lugar de 300 ms, 300 ms no lugar de 150 ms, e 240 ms e 501 ms no lugar de 150 ms. O último é o mais instrutivo: os 501 ms são a duração do caso anterior, um valor que ficou na tela de uma execução para a seguinte. Refeitos à mão, com a duração conferida, os quatro coincidiram com o motor. Erro de operação, e não do software: a classe de erro mais frequente no escritório.

Família 2: razão constante, numa só combinação

Os outros quatro tinham a mesma razão, 1,2164, e só apareciam em baixa tensão, com invólucro raso e eletrodo horizontal. A corrente de arco era idêntica entre as implementações, o que significa que tensão, curto-circuito, espaçamento e configuração foram lidos da mesma forma: a divergência estava no fator de correção de invólucro. A hipótese foi testada direto: inverter o sinal de um dos coeficientes desse fator reproduz os quatro valores divergentes. O sinal foi conferido no texto da norma, e a implementação de terceiros concorda com o motor. Erro de implementação.

ResultadosRazãoAssinaturaCausa
1 a 40,5000 · 2,0000 · 1,5999 · 3,3393razão exata de duração, variáveldado de entrada: duração do arco digitada errada ou herdada do caso anterior
5 a 81,2164razão constante; corrente de arco idênticacoeficiente do fator de correção de invólucro

Diagnóstico dos resultados fora do critério. Fonte: o trabalho publicado no CONTECC 2026.

Tudo isso sem acesso ao código-fonte da ferramenta comercial, só pela estrutura numérica do desvio.

Como aplicar no seu estudo

  • Antes de usar uma ferramenta em laudo, rode nela um conjunto público de casos de referência e registre essa verificação na documentação do estudo.
  • Quando um resultado divergir, divida um valor pelo outro. Razão “redonda”, que muda de caso para caso: confira a duração e os demais dados digitados. Razão constante, que só aparece numa combinação de parâmetros: suspeite do software e leve o caso ao fornecedor.
  • Os 53 casos e os resultados estão na página de validação do motor de cálculo.

Duas lições de prática

O tempo manda. A energia incidente é proporcional ao tempo de eliminação da falta, então a maior alavanca de redução de risco está nos ajustes da proteção, e não na distância de trabalho ou no EPI. Por isso o estudo de arco não se separa do estudo de coordenação e seletividade: separados, dão um número correto e tecnicamente inútil.

Energia incidente não se converte em faixa do Anexo IV. Os valores de 4, 8, 25 e 40 cal/cm² do Anexo IV da NR-10 são o arc rating mínimo da vestimenta, e não faixas de energia incidente. Havendo estudo, a vestimenta é especificada com ATPV (ou EBT) maior ou igual à energia incidente calculada no ponto. Um estudo numericamente verificado que termine em vestimenta errada não protege ninguém.

Ler o trabalho completo

Alessandro da Paixão Pereira Júnior. Protocolo de verificação de implementações do método IEEE 1584:2018 adotado pela ABNT NBR 17227:2025. CONTECC 2026, modalidade Eletricista, Confea, 5 páginas. Os resumos dos três trabalhos estão em Publicações e mídia.

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Perguntas frequentes

O software que eu uso está errado?

O trabalho não avalia produtos e identifica as ferramentas só por número. O que ele mostra é que um conjunto de casos com critério declarado antes separa erro de digitação de erro de implementação. Para saber da sua ferramenta, rode os casos nela.

Qual tolerância usar na comparação?

As do trabalho: 0,02 cal/cm² na energia incidente e 3,0 mm no limite de aproximação segura, compatíveis com o arredondamento de exibição de duas casas decimais das ferramentas comparadas.

Onde estão os casos de referência?

Na página de validação do motor de cálculo, com a matriz aberta.

Os exemplos resolvidos da IEEE 1584 não bastam?

Os exemplos do Anexo D da norma entraram como âncora adicional. A matriz de 53 casos foi montada de propósito para exercitar as regiões do modelo em que erros de implementação são plausíveis, e não apenas casos comuns de projeto.